Nei Nordin
No início do século XX, Porto Alegre era uma cidade provinciana (como alguns diriam, ainda é). Cerca de setenta mil almas habitavam uma capital onde carroças dividiam espaço com bondes puxados por animais, e o ritmo da vida ainda obedecia ao passo dos cavalos. Mas isso estava prestes a mudar.
Em 1906, o empresário Januário Grecco, industrial e proprietário do Cine Apolo, resolveu trazer para a cidade uma das maiores novidades tecnológicas do mundo. Comprou um automóvel francês da marca De Dion-Bouton, então sinônimo de modernidade. O veículo possuía iluminação a querosene, motor de 8 a 10 HP e utilizava álcool como combustível. Custou cinco contos de réis, e o prefeito José Montaury isentou a compra de impostos por um motivo simples: era o primeiro automóvel de Porto Alegre. A novidade foi manchete no Correio do Povo.
Mais do que um veículo, aquele automóvel era uma espécie de máquina do futuro. Num tempo em que ninguém imaginava uma cidade dominada por motores, ele parecia desafiar a lógica: andava sem cavalos.
O carro chegou ao porto vindo da Argentina. E foi justamente ali que surgiu um problema tão inusitado quanto a própria novidade. Ninguém sabia como fazê-lo funcionar. Não havia mecânicos especializados. Não havia motoristas. Na verdade, não havia sequer alguém capaz de ligar o motor.
Depois de muito procurar, descobriram que a única pessoa na cidade com experiência em automóveis estava presa.
Chamava-se Marini Constanti, um imigrante italiano que cumpria pena na Casa de Correção, localizada nas proximidades da atual Usina do Gasômetro. Antes de emigrar para o Brasil, havia trabalhado com mecânica e condução de automóveis na Itália. Como as autoridades não permitiram sua saída, o jeito foi empurrar o carro até a prisão. Ali mesmo, dentro do presídio, Constanti ensinou como dar vida àquela engenhoca francesa.
Mais tarde, recebeu autorização para deixar a cadeia durante o dia e tornou-se motorista da família Grecco. Ao que tudo indica, o primeiro motorista de Porto Alegre era também um presidiário.
Quando finalmente começou a circular, o automóvel virou atração. Crianças corriam atrás dele. Adultos interrompiam a caminhada para observá-lo. A máquina fazia barulho, soltava fumaça e exalava cheiro de combustível. Para muitos porto-alegrenses, era a primeira vez que viam um veículo sem cavalos. Era como assistir ao futuro atravessando a rua.
A cidade, naturalmente, não estava preparada para aquilo. O código de veículos, elaborado em 1893, sequer imaginava a existência de automóveis. Somente em 1913 a legislação foi atualizada, quando Porto Alegre já contava com 188 carros registrados. A partir de então tornou-se obrigatório o uso de lanternas durante a noite e de buzina em todas as esquinas. A velocidade máxima era de apenas 6 km/h no centro, 10 km/h nos bairros e 15 km/h fora da cidade. Não apenas por segurança, mas também para evitar que os cavalos se assustassem com aquela estranha novidade.
Poucos meses depois da chegada do automóvel, em 25 de maio de 1906, o presidente do Estado, Borges de Medeiros, utilizou o veículo para percorrer a recém-inaugurada rua Caminho Novo, atual Avenida Voluntários da Pátria. Nos dias seguintes, também viajaria de automóvel por Viamão e Gravataí, transformando aquela máquina não apenas em um símbolo do progresso, mas também em uma eficiente peça de propaganda política.
Em poucos anos, o que parecia uma curiosidade quase inacreditável deixaria de ser exceção para transformar a cidade. Aquele automóvel francês não trouxe apenas um novo meio de transporte. Anunciava o início de uma nova era. E pensar que tudo começou porque o único homem capaz de fazê-lo funcionar estava atrás das grades.