Arthur Nordin
Bob Dylan, com meros 24 anos e no ápice de sua fama até então, já havia solidificado seu espaço no panorama da música 'folk'. Conquanto seu primeiro álbum, este de '62, tenha sido majoritariamente composto por "covers", sua gradual transição para produções integralmente autorais evidenciou sua ecleticidade como artista, bem assim seu talento nato como contador de histórias.
Adepto ao conjunto de Woody Guthrie e guiado, tanto profissionalmente quanto espiritualmente, por Pete Seeger, Dylan, desde os primórdios de sua carreira, cultivara um potente senso de ativismo social em suas canções.
Por óbvio, isso não se trata de uma anomalia. O intervalo da metade dos anos 1960 até o início da década de 1970 foi um momento de profundas transformações em âmbitos como a música, a política, o estilo de vida e a contracultura. Nesse mesmo contexto, a música folk vivenciou uma acelerada metamorfose, expansão e pluralização.
Observa-se, inclusive, que, naquela época, era comum referir-se ao folk através da expressão “música de protesto”, pois comumente colocavam em evidência as tribulações do "working man" (o homem-comum). É nesse contexto que foi introduzido o Newport Folk Festival.
O festival é considerado um dos primeiros festivais de música moderna na América e serviu como um palco crucial para o folk revival (renascimento do folk) nos anos 60. Era amparado como uma celebração de raízes históricas e conduzido por um espírito fundamentalmente tradicionalista. Por motivos que veremos adiante, a edição de 1965 foi um cataclismo, não apenas para as delimitações do Festival em sim, mas para a própria identidade do folk.
Bob Dylan era, até então, o porta-voz e o maior herói do folk revival (o renascimento do folk). O público de Newport, composto por puristas do folk, admirava-o por suas letras políticas profundas e por tocar o tradicional violão acústico e gaita. No início de 1965, Dylan já havia lançado Bringing It All Back Home, seu primeiro álbum com faixas elétricas, indicando uma mudança de direção, mas o público do festival ainda esperava o "velho" Dylan.
No domingo à noite, Dylan então subiu ao palco. Em vez de seu violão solitário, ele estava acompanhado por uma banda – essencialmente, membros da Paul Butterfield Blues Band e o músico Al Kooper no órgão – e, o mais chocante de tudo, segurando uma guitarra elétrica Fender Stratocaster.
O grupo começou a tocar a música "Maggie's Farm". O som elétrico, alto e, para alguns (incluindo o próprio Pete Seeger), mal mixado e distorcido, inundou o Fort Adams. A reação do público foi imediata e explosiva, com uma parte da plateia vaiando e gritando frases como "Traidor!", "Vendido!", "Toque música folk!"e o icônico “Judas!”.
A banda continuou com "Like a Rolling Stone", seu novo single, que estava no topo das paradas, mas que para o público de Newport era rock and roll, e não folkpuro. O tumulto continuou, e Dylan, visivelmente incomodado com a reação hostil, encerrou o set elétrico após apenas duas ou três músicas.
Mais do que um show fracassado, a apresentação foi a declaração de Dylan de que ele não seria mais o "porta-voz de uma geração" e que a música folk precisaria evoluir ou ele a deixaria para trás. A coragem e o desprezo de Dylan pela opinião do público, expressos ao desafiar abertamente os confins limitados da tradição, ajudaram a moldar a imagem do músico como um artista destemido e em constante evolução.

Dylan é um paradoxo humano. Nos palcos, Dylan canta "Blowin' in the Wind" e "Only a Pawn in Their Game", músicas de âmbito de protesto; noutro giro, em entrevistas, Dylan afirma veemente que nunca foi um "cantor de protesto". Com décadas de história, apenas pode-se inferir de Dylan que o cantor não quer ser entendido e não pode ser categorizado. Dylan, há mais de 60 anos, transmuta-se no imaginário popular, enquanto que suas histórias são passadas de geração para geração. Suas intenções verdadeiras? Nunca saberemos, mas o mistério circundante nos deixa eternamente cativados. Mais do que habilidoso, Bob Dylan é, por si só, folclórico.