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Arqueólogos podem ter encontrado o túmulo de Cervantes

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29 de January, 2026
Arqueólogos podem ter encontrado o túmulo de Cervantes

Às vésperas dos 400 anos da morte do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), surgem novas esperanças de esclarecer um mistério que perdura há quase quatro séculos: o paradeiro dos restos mortais do autor de Dom Quixote.

post_697ae317a2507.jpgQuando morreu, Cervantes ainda não desfrutava do reconhecimento universal que alcançaria posteriormente. De forma modesta, pediu para ser sepultado no Convento das Trinitárias Descalças, em Madri, como gesto de gratidão à ordem religiosa. No entanto, as sucessivas reformas realizadas no edifício ao longo dos séculos dificultaram a localização exata de seu túmulo, já que os restos mortais originalmente enterrados em uma pequena capela foram transferidos para a nova igreja do convento.

Um avanço decisivo ocorreu no sábado, 26 de janeiro de 2015, quando pesquisadores, durante a prospecção do segundo de 36 nichos da cripta, encontraram escombros, areia, fragmentos de vestimentas, ossos humanos e partes de um caixão em mau estado de conservação. Entre esses achados, destacou-se uma placa de madeira com as iniciais “M.C.”, considerada a principal pista até o momento. Antropólogos e arqueólogos de toda a Espanha analisam agora os restos ósseos para verificar se pertencem, de fato, a Cervantes.

O trabalho faz parte de um amplo e custoso projeto interdisciplinar contratado pela prefeitura de Madri em abril de 2014. Para não interferir na rotina das monjas em clausura, a equipe optou inicialmente por métodos não invasivos, como georradar, termografia e escaneamento tridimensional. O coordenador da pesquisa é o antropólogo forense Francisco Etxeberría, professor da Universidade do País Basco, conhecido por sua participação em investigações envolvendo figuras históricas como Salvador Allende e Pablo Neruda.

post_697ae3178d4e1.jpgAntes das escavações, os pesquisadores realizaram um extenso levantamento histórico, analisando documentos como registros de obras, certidões de óbito e testamentos, a fim de formular hipóteses sobre a localização do túmulo. Na fase de prospecção, georradares ajudaram a identificar possíveis sepulturas subterrâneas. Microcâmeras endoscópicas foram então introduzidas nos nichos da cripta, permitindo examinar seu conteúdo antes do início do trabalho arqueológico propriamente dito.

Apesar do entusiasmo gerado pelas descobertas, os especialistas pedem cautela. Cervantes nutria profunda gratidão pelas Trinitárias Descalças, que intervieram para libertá-lo, juntamente com seu irmão Rodrigo, após cinco anos de cativeiro em Argel. No entanto, os ossos encontrados pertencem a diversos indivíduos, e ainda será necessária uma série de análises para confirmar se algum deles pode ser associado ao caixão identificado pelas iniciais “M.C.”. Segundo o delegado de Artes, Esporte e Turismo de Madri, Pedro Corral, “no momento não se confirma nem se descarta nada”.

Como não há descendentes diretos da família Cervantes, não será possível recorrer à comparação genética. Em vez disso, os cientistas buscam indícios físicos e materiais compatíveis com a biografia do escritor. Sabe-se, por exemplo, que pouco antes de morrer, em 16 de abril de 1616, Cervantes ingressou na Ordem Terceira Franciscana, o que indica que pode ter sido sepultado com o hábito da irmandade. A análise dos tecidos encontrados pode ajudar a determinar a antiguidade e a composição dos restos.

Além das vestimentas, os especialistas procuram marcas de ferimentos compatíveis com a vida militar do escritor. O perfil esperado é o de um homem com cerca de 70 anos, apresentando possíveis fragmentos de metal no osso esterno ou atrofia no braço esquerdo - sequelas dos disparos sofridos na Batalha de Lepanto, em 1571. Também se busca a presença de partículas de chumbo, além de sinais de artrose, condição que, segundo documentos históricos, causou o encurvamento de sua coluna.

Outro possível indício é o estado precário da dentição. O próprio Cervantes descreveu seus dentes no prólogo de Novelas exemplares, afirmando possuir apenas seis, mal alinhados e em más condições. Detalhes como esse podem ser decisivos para confirmar, ou não, se os restos encontrados pertencem ao maior nome da literatura espanhola.

Fonte: DW Brasil - janeiro de 2015

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